Primeiramente temos que ter em mente que o domínio de técnicas de enxertia no seu repertório como cultivador de plantas amplia em muito a sua capacidade de transformar materiais pífios em plantas, se não com um bom potencial construtivo, com uma aparência mais agradável e "correta" em relação à estética que se busca num bonsai.

 

As técnicas de enxertia são basicamente duas, de aproximação, quando pareamos o cambium do enxerto e do receptor de forma paralela ou transversal; ou enxertos de ponta, em inglês scion graft, em espanhol injerto de púa; todos traduzidos basicamente como enxerto de broto.

 

Os enxertos de ponta são bastante comuns em plantas frutíferas e ornamentais, enxertando variedades menos vigorosas em raízes de plantas mais vigorosas da mesma espécie ou da mesma família.

 

No mundo do bonsai, são famosos os enxertos e ponta para troca de folhagem em coníferas, principalmente juníperos, para produção de pinheiros de folhagens estéreis (que não produzem cones ou semente), para melhora das ramificações em diversas espécies e para troca de folhagem para produção de flores raras em Prunus (Ume).

 

Normalmente estas plantas menos vigorosas citadas são de baixa produtividade quando feitas de estacas, enraizando muito poucas unidades, sendo comercialmente viável apenas a propagação por enxertia.

 

Existem alguns fatores básicos para que o enxerto de ponta seja um sucesso. Antes de mais nada, obviamente, tanto a planta que vai receber o enxerto quanto a doadora, devem estar tratadas contra pragas, insetos, fungos e ácaros. Como vou mostrar mais a frente, vai se criar um ambiente perfeito para a proliferação de pragas no pacote do enxerto.

 

Outro fator importante a ser considerado é o vigor de ambas. Sempre prefira utilizar plantas que estejam em seu vigor máximo, pois isso vai facilitar e acelerar o pegamento do enxerto num curto prazo de tempo. Isso quer dizer, deixe a planta que vai ser a doadora e a enxertada crescerem livres por pelo menos 1 ano intocadas.

 

É importante saber que o enxerto de ponta é o encaixe de uma folhagem ou gema num corte ou janela abertos na planta receptora, e sabemos que quanto mais rápido for o procedimento e menos seiva inundar o espaço entre ambos, maior a chance de sucesso do enxerto.

 

Sabendo disso, prefira realizar seus enxertos de ponta no pico do inverno de sua região. O clima mais frio causa a paralização (ou redução da velocidade) da circulação de seiva na maioria das plantas, e isso é bastante importante nas coníferas. As duas partes do cambium precisam do máximo de tempo de contato sem que a seiva interrompa a fusão de ambos. Se por acaso você realizou o corte do seu pinheiro (que tem a seiva mais viscosa de todos os citados) e ela imediatamente começa a formar gotas ou fluir, você já perdeu o momento correto de enxertar e muito provavelmente não vai dar certo.

 

Em Curitiba – PR a minha referência é a floração das sakuras, que normalmente ocorre entre 15 e 20 de julho (8ºC). Entretanto logo em seguida, por volta de 10 de agosto, se inicia um veranico (20ºC). Então todos os enxertos sempre ficam protegidos do sol e calor direto por pelo menos 60 dias. Isso evita que a sequência de calor e frio alternados que teremos de julho a setembro faça a seiva fluir antes do que desejamos e percamos os enxertos.

 

A técnica é relativamente simples e funciona tanto em mudas, quanto galhos, sendo bem mais difícil em troncos devido à profundidade do cambium que pode variar, em plantas maiores chega a estar 3cm abaixo da casca da planta.

OBS: no caso de pinheiros, use sempre brotos que não tenham sido podados (mekiri) ou desfolhados no ano anterior, isso é necessário para promover maior vigor.

Etapas:

1. Selecione brotos que tenham no mínimo a espessura de um lápis e com pelo menos 5cm de comprimento (descontando as agulhas), a coloração dos brotos é importante, devem estar dourados ou marrom claros. Brotos verdes ou lignificados possuem menor desempenho no enxerto. O primeiro desidrata muito rápido e o segundo possui menor atividade celular para a adesão do cambium.

 

2. No caso de propagação selecione plantas que tenham a mesma espessura ou próxima do enxerto, isso vai facilitar o processo pois vai permitir o alinhamento do cambium de ambos os lados, não apenas de um, aumentando bastante a chance de o enxerto ter sucesso.

 

3. O corte deve ser realizado de uma única vez, com facas próprias para enxerto e que estejam muito bem afiadas. Facas com lâminas pouco afiadas, sujas ou com dentes vão desfiar o cambium e isso vai impedir a adesão perfeita.

 

4. O preparo do broto é algo que não pode ser ensinado, é mais uma prática de observação. Na média devemos deixar poucas folhas de forma totalmente radial com um certo volume que seja suficiente para que o broto cresça e não seja demais que cause transpiração excessiva até a desidratação antes que pegue o enxerto.

 

5. Retire o excesso de folhas cortando na base, não arranque. Depois faça dois cortes, um longo em um lado e outro curto no lado oposto, ajustando a base do broto de forma totalmente perpendicular. Deixe o broto de lado.

 

6. Utilize a lâmina com a parte plana virada para a planta e o ângulo virado para fora, realize um corte deslizando a lâmina ao mesmo tempo que empurra, penetre alguns milímetros num ângulo de 45º e depois siga paralelo ao tronco realizando um corte exatamente do tamanho do corte já realizado no broto.

 

7. Para o encaixe, abra ligeiramente o corte da planta receptora e deslize o broto pelo canal com a parte do corte mais longa virada para dentro até o fundo com o cuidado de deixar o cambium alinhado. Lembre-se que quanto mais contato, maior a chance de pegar. Uma dica é deixar a parte externa de ambos totalmente alinhada.

 

8. Após encaixar, utilize um fio de arame para fechar o corte. Aperte bem de leve, o objetivo é o maior contato possível sem estrangular a planta ou o broto. Feche tudo com fita buddytape ou use uma pasta selante em todo o sistema, eu recomendo a Kyonal em substituição à fita.

 

9. O último e mais chato é ensacar e fechar a estrutura de forma que não entre nenhuma água e não se perca a umidade gerada pela transpiração. Para reduzir a transpiração e evitar que o broto seque, utilize uma bola de esfagno bastante úmido sem deixar que este fique em contato com a folhagem.

 

10. Se tudo der certo entre 70 e 90 dias pode ser verificado o crescimento do broto, o que significa que muito provavelmente o enxerto está pego. Quando notar o excesso de transpiração ou que o crescimento do broto esteja tocando no plástico, este pode ser aberto, uma pequena janela, evite abrir tudo de uma vez para evitar ressecamento. Lembre-se que o broto está a pelo menos 70 dias em condições bastante úmidas e não deve ser exposto de uma única vez.

velas com 70 dias

 

Velas com 90 dias

 

Após 100 dias, já sem o pacote e o esfagno, exponha o seu enxerto ao sol da manhã, de preferência com sombrite de 50% de filtro solar, regue e comece a adubar. Se tudo deu certo até aqui, em maio você poderá cortar a planta original deixando apenas do enxerto para baixo (scion).

Corte da planta receptora em maio seguinte (senjumaru)

Corte da planta receptora em maio seguinte (nishikimatsu)

 

Não custa lembrar, esta técnica apesar de simples exige algum treino, uma boa noção anatômica, mãos firmes e equipamentos adequados, mas pode ser um pouco decepcionante, principalmente porque os enxertos podem demorar até 60 dias para morrerem sem ter pego.

 

Não desista, o treino pode levar à perfeição.