Para primeira postagem pensei que seria interessante contar um pouco da minha trajetória dentro do bonsai e falar um pouco do ponto de virada que me fez realmente levar o bonsai a sério.
Meu primeiro contato com um bonsai, ou que eu considerava ser um bonsai, foi em 2006. Naquela época, obviamente, eu já sabia o que era um bonsai, mas ao contrário da maioria das pessoas que alegam ter conhecido o bonsai pelo filme Karatê Kid (1984), eu os conheci pelo filme distópico futurista Blade Runner (1982). Neste filme os bonsais se misturam num cenário caótico urbano aos equipamentos analógicos futuristas, mas não sabemos se são reais ou sintéticos, como a maioria dos animais que aparecem no filme, com a intenção de sempre trazer a natureza em miniatura para perto do ser humano. Alguns anos depois, numa livraria do Barra Shopping eu acabaria comprando o livro do famoso Peter Chan, BONSAI, a arte de cultivar e cuidar de árvores em miniatura, que tenho até hoje.

Enfim, eu sabia o que era um bonsai, e um dia nos idos de 2006 vindo de carro de uma viagem de fim de semana a Penedo-RJ para casa, com quem seria minha atual esposa, passando por uma banquinha de plantas na estrada, não pude deixar de reconhecer aquele bonsai, dentro da perspectiva que eu tinha naquela época. Era meu primeiro “bonsai”, uma estaca de acer deshojo enraizada num vasinho de cerâmica Petrópolis que imitava um granito cinza.
Em apenas 20 dias, no calor extremo de Jacarépagua - RJ ele estava morto, não saberia dizer o que houve até hoje, se foi excesso de água, falta de sol, fungos ou insetos, o fato era que estava morto e eu com uma indignação profunda.
Nos dias que se seguiram, muita coisa mudou na minha vida inclusive a passagem só de ida comprada para morar em Videira - SC em menos de 2 meses. Foi então que sem me lembrar por que motivo fui com um amigo até a Chácara Tropical, e ao caminhar pela loja descobri uma área exclusivamente dedicada aos bonsais. Não era possível, pensei eu, mas havia bonsais vivos no calor infernal do Rio de Janeiro, inclusive um lindo acer deshojo com folhas recém brotadas já que estávamos no fim do inverno carioca.
Sentado cuidando das plantas estava um simpático senhor que me atendeu muito bem, me mostrou todo o local e ao saber o pouco tempo que eu tinha me disse “olha, eu posso te dar aulas particulares antes da sua viagem, você paga as aulas e pode ficar aqui praticando comigo”; de pronto aceitei o convite e passei 3 dias inteiros ali, conversando, aprendendo e praticando. Apenas alguns anos depois descobri já em 2012 que quem me introduzira 6 anos antes no bonsai era o famoso Roberto Gerpe, hoje infelizmente apenas uma sombra daquela pessoa altiva e comunicativa que conheci, mas que com certeza faz parte da fundação do bonsai no Brasil.

Junípero Kichu, planta da aula com Roberto Gerpe, foto em 2017.
Já instalado em Videira - SC, acabo conhecendo 2 engenheiros no trabalho, um alemão e um brasileiro que compartilhavam para além da fascinação pela indústria alimentícia, o amor pelos bonsais, o alemão já mais idoso fazia orgulhosamente de semente os seus bonsais. O outro, carioca como eu e de meia idade, foi quem viabilizaria mais tarde a vinda de São Paulo das primeiras plantas que eu começaria a praticar, alguns pré bonsais de acer, ferramentas e arames adquiridos na loja online Bonsai Kai. Estas plantas viriam a sofrer as maiores atrocidades que um iniciante poderia cometer, foram vítimas e ao mesmo tempo testemunhas do meu precário aprendizado. Videira ficava a 650km do curso de bonsai mais próximo, e sem internet ou mesmo bons livros, a minha fonte de conhecimento eram apenas alguns livros fajutos ou revisitas de má qualidade que eu conseguia comprar quando visitava minha família no Rio de Janeiro.
Em 2008, faço meu primeiro curso e workshop, este com o famoso Walter Pall em Joinville - SC na Nipon Bonsai, em 2012 me mudo para Curitiba quando começo a frequentar eventualmente aos finais de semana a loja O Bonsai. Nesta época eu já colecionava diversos bons livros importados, assinava a revista eletrônica Bonsai Pasión, e ao lê-los sempre me intrigou a seguinte questão, por que o bonsai no Brasil não tem o mesmo nível que o bonsai que vejo em livros, revistas e no youtube mesmo após décadas de trabalho?

Plantas da minha coleção em 2008 na varanda do apartamento em Itajaí - SC.
No ano de 2014 acabo comprando a casa onde moro atualmente e haveria de fazer a minha mudança, inclusive com o que eu chamava de coleção. Neste momento muita coisa nas minhas plantas já me incomodava, principalmente o fato de não ter desenvolvido quase nada de bom desde 2006. Algumas daquelas plantas não veriam seu novo lar, foram descartadas num terreno baldio vizinho.
Então eu começo a perceber que: primeiro, minha coleção não é uma coleção, é um ajuntamento de porcarias sem nenhum futuro. Segundo, eu precisava fazer alguma coisa urgente pois estava a 8 anos perdendo tempo e não produzindo nada de qualidade. Terceiro e mais desesperador, até aquele momento não havia visto nenhum trabalho no Brasil que chegasse perto do que eu queria como bonsai. Essa cena caótica vai se arrastar até 2017.

Plantas da minha coleção no início de 2017.

Kaede adquirido em 2008, foto em 2017.
Em 2017 conheço o profissional Ryan Neil, que havia estudado por sete anos com um dos maiores ícones do bonsai mundial, Masahiko Kimura. Assistindo aos seus vídeos do BSOP no youtube, começo a entender algumas coisas. A principal, que o que eu fazia não era bonsai, estava perdendo meu tempo.
Assinar a plataforma Mirai foi ainda mais desesperador, descobri que não só minhas escolhas de materiais estavam erradas, mas também as técnicas, o momento que eu as aplicava, os insumos que eu usava, e que as pessoas e profissionais que eu conhecia não poderiam me ajudar a resolver isso. Mesmo tendo diversos livros, me faltava a materialização visual de tudo que eu lia, e isso veio através da plataforma e das lives gravadas.
Chegamos ao ponto de virada, neste dia estava decidido. Tudo que não tinha a menor chance de alcançar uma meta mínima em 5 anos seria sumariamente descartado, então, aproveitando o dia da coleta do lixo orgânico, joguei 70% dos meus “pré bonsai” fora, literalmente no lixo. A partir deste dia a compra de materiais seguiria um critério mais rigoroso. Me comprometi comigo mesmo a dedicar 50% do meu tempo livre a tudo que eu tivesse acesso sobre bonsai, sendo que assistiria pelo menos a dois vídeos da plataforma Mirai por semana. Nesta época a plataforma já vinha há quase um ano postando conteúdos semanais.
Essa imersão cultural no assunto me fez desenvolver em 3 anos o que eu não havia conseguido fazer em 8, em 2020 eu já aplicava técnicas muito mais avançadas e de forma mais assertiva nas minhas plantas, ajudava algumas pessoas com suas plantas e compartilhava conhecimento principalmente com outro amigo, Rafael Kholer, o que fazemos até os dias de hoje e que me ajudou a desenvolver ainda mais rápido um senso crítico, ele sempre foi mais experiente que eu no bonsai.

Primeira planta estilizada já em 2018, 1 ano de Mirai.
O que eu aprendi neste período está resumido em poucas palavras e que não são minhas, “a gente não vê, até que vê, e não consegue mais deixar de ver”. No meu caso isso serviu para as técnicas, que de tanto ver, treinar e discutir com várias pessoas no Brasil e de fora dele acabei desenvolvendo uma forma pessoal de execução. No caso do cultivo, aprendi a interpretar a reação das plantas e entender em que momento estão. Para isso, ter mais de 70 plantas sob meus cuidados em casa ajudou muito, pois a repetição excessiva ajudou a fixar o conhecimento teórico traduzido em prática até que se tornasse um ato natural. Muitas vezes fiz manutenção gratuita em plantas de amigos para poder treinar ainda mais.
O caminho não foi fácil. Ser autodidata em qualquer assunto é um caminho muito mais árduo, mas foi a possibilidade que a vida me deu e eu aceito.
Mas e o que mudou em relação às pessoas?
Essa com certeza foi a parte mais difícil. Por possuir um perfil muito combativo, tive que aprender ao longo do tempo a deixar, não só de tentar convencer as pessoas, mas também deixar de criticá-las duramente. Nem todas as pessoas têm o mesmo objetivo ou interesse no bonsai, muitas estão por mera diversão e muitas estão em outro contexto sociocultural que não lhes permite o acesso a quantidade de informação que tive a oportunidade de obter até aqui. Com certeza o domínio de idiomas é a maior barreira. Noventa por cento da informação eletrônica disponível escrita ou em vídeo, e também os fóruns de discussões são em inglês e espanhol, idiomas que a maioria dos praticantes brasileiros não domina. Além disso, e o google tradutor e youtube ainda pecam em muito com traduções literais esdrúxulas, como “transparency” para “marca d’água”, sendo que ambas não expressam bem a questão da quantidade de sol que perpassa uma copa após uma desfolha parcial. Tradução não é meramente palavra, mas sim contexto.
No fim acabei descobrindo que o que vale no bonsai é o que muitos japoneses têm como filosofia, que é pensar que se você pretende fazer algo, sempre dê o seu melhor independente do resultado final, não meramente ao acaso (Ganbatte), mas sim após o esforço, estudo e dedicação reais, seja com a finalidade de tirar o matinho do vaso ou até mesmo fazer o design que demorou anos de construção de ramificações para ter esta oportunidade – Ganbatte Kudasai!

Kaede adquirido em 2008, foto de 2026.
